Respiração

Vida é inspiração. Arte é expiração.


Pensamento meu enquanto devaneio sobre a significação da Arte em minha vida e, dessa vez, não falo apenas da dança.
Como seria humanidade sem a Arte?
Honestamente, acho que seria no mínimo triste, quase morta, cruelmente mecânica e gélida.
Existe uma citação de Mokiti Okada, (fundador da Igreja Messiânica) que diz assim: “Se a Arte não existisse, a vida seria seca e sem sabor, como se estivéssemos dentro de uma cela de pedras.” Esta ideia nos fornece uma boa pista da real importância da Arte em nossas vidas: desanúvio das nossas emoções, sobretudo aquelas difíceis de serem verbalizadas.

A Arte torna dizível a palavra muda.

Ensina o artista e também o apreciador. Toda obra artística comunica, reverbera, inquieta, espelha. A Arte é didática. Conta a vida através da cor, da melodia, do barro, do gesto. Por instantes, suspende o sujeito de sua realidade maçante e previsível, de asfalto e de muros, abrindo em sua mente espaços arejados que o faz pensar em coisas ainda nem cogitadas por si próprio. Com essa habilidade, a Arte não precisa ser panfletária.

É por isso que necessitamos dela, foi para isso que a inventamos: para que ela nos resgate das águas densas do cotidiano. É a mão quente sobre o peito que se movimenta esvaziando os pulmões lotados das obrigações, tensos pelas provocações e saturados pelas palavras não ditas.

Vida é inspiração. Arte é expiração.

Em um novo ritmo.

A vida da gente passa por fases e considero isso parte  natural de um processo de amadurecimento, onde há revisão dos pensamentos, emoções e opções. Sou bailarina por vocação e há muito já constatei que a Dança – como expressão artística, independente de qualquer modalidade  – é a minha principal forma de comunicação quando a voz não é o suficiente para dizer o que se passa na alma.

No entanto, não tenho como negligenciar minha atração e intensa curiosidade sobre as outras linguagens artísticas e sinto necessidade de compartilhar-las publicamente.  Esse é o motivo da mudança de foco deste blog. O antigo “Casa da Brima” , hoje “Da dança e outras artes…”, ainda vai falar sobre dança (e dança do ventre), mas não  só disso. E para mudar de vez, nome  e layout novos.

Amadurecer também é um processo onde reorganizamos nossas prioridades. E, aos poucos, através dos textos deste despretensioso refúgio virtual, eu mostrarei algumas delas.

Estrelas pra você.

Projeto RAQSAT EM PAUTA – A dança do ventre em debate.

Contente, receosa, ansiosa e curiosa. São exatamente essas 4 palavrinhas que definem o que sinto neste momento.

Iniciar um projeto é caminhar por uma estrada onde o que se conhece é apenas a paisagem imediata, aquela que está visível até onde o olho alcança…  Você sabe o que está em volta e um pouco a frente dos seus passos, mas faz apenas uma ideia do que pode encontrar pelo caminho, precisamente, na paisagem que os olhos ainda não veem.

Gosto de ler sobre dança*. Não só sobre dança do ventre – que, aliás, possui uma bibliografia terrivelmente pobre, mas esse não é o assunto de hoje.  Leio desde o que ‘me cai na mão’  ao que vem por indicação. E costumo vasculhar algumas coisas pela internet, desde o blog mais pueril até o artigo acadêmico da Scielo.  É…. Vamos dizer que sou eclética, rs. Mas é que penso que tão importante quanto dançar, ler sobre dança afeta a nossa compreensão sobre as coisas que estão no entorno e no centro da mesma e que influenciam a forma como ela evolui. Em outras palavras, são importantes para entender porque essas coisas são do jeito que são.

Por causa desse hábito, desenvolvi o gosto de falar sobre dança, seja através da escrita (como faço aqui no blog) ou sentada com amigos da dança. Aliás, para mim não há coisa que faça o tempo passar mais depressa do que estar ao lado de gente que faz e pensa dança numa prosa séria-divertida (e se tiver uns petiscos do lado melhor ainda, hehehe…). Graças aos deuses, encontrei muita gente boa pra essas conversas, algumas pela internet, mas a maioria foi pela vida mesmo… Olha, dentre outras coisas, esse é um dos maiores  presentes que a dança me trouxe: pessoas com as quais posso dividir as inquietações, as alegrias,  as revoltas e as ideias sobre essa coisa chamada Dança!

Uma dessas pessoas é a Elaine, dona do blog Tagarelando sobre dança. Primeiro a gente se conheceu via internet, naquelas comunidades que existiam no Orkut, lá pelos idos de 2003…. Sendo minha conterrânea, não demorou pra que a gente se conhecesse numa de minhas viagens à nossa terra natal. A amizade cresceu  e por termos afinidades na forma como vemos dança  é comum trocarmos ideias pelos menos 2 vezes por semana, via Skype, sobre as coisas que envolvem nossa tão querida, e muitas vezes incompreendida, dança do ventre.

Há alguns meses atrás, numa tarde fria aqui no Sul (e acho que nem tanto em Campinas…), conversávamos, melhor, desabafávamos, eu e Elaine, sobre algumas situações que nos inquietam com a dança.  Tentando achar uma solução para todos os incômodos que  pinicavam nossas pobres almas, imaginamos como seria legal se houvesse na prática da dança do ventre – fosse em aula, workshop ou seminário – um momento pra se debater sobre dança, de forma bem embasada e argumentada, que desenvolvesse o olhar crítico (no sentido de analítico) sobre a dança.

E como  toda ideia que vem chegando, chegando até que chega, nascia, naquele momento,  o Projeto “Raqsat em Pauta.

“A união faz a força”, diz o ditado, e obedientes a ele convidamos mais gente pra essa empreitada…  Assim chamamos outras 3 pessoas as quais temos um imenso respeito pelas profissionais sérias que são, e porque além da admiração profissional existe o vínculo afetivo da amizade que nos une: Roberta Salgueiro, Lory Moreira e Lulu Sabongi.  Com a aceitação de todas, o time das Raqsat estava formado.

Mas como faríamos isso se estamos, cada uma, em regiões diferentes desse imenso país? Bem, a resposta é óbvia: o mundo http://www.  Entretanto, deveria ser algo ainda não explorado pelo meio. Os fóruns das redes sociais são um modelo gasto… Poderíamos usar um blog para ser este espaço, mas ainda não era o ideal…. Então,  ideia do vídeo nos pareceu ser mais atraente afinal, a força da imagem de quem fala, com a entonação da voz são aliados na hora de se comunicar.  Certo?

Como dizemos na descrição de cada vídeo, não temos o intuito de colocar “verdades absolutas” em nossas opiniões. Também temos a consciência de que não é possível esgotar os temas que trazemos em poucos minutos de vídeo. Mas sentimos que é necessário dar voz à quem faz a dança profissional nesse país, quem vive e paga suas contas com ela. Por quê? Porque quando falamos estamos analisando, quando analisamos, comparamos, constatamos e enxergamos o que há de diferença e semelhança no objeto do qual falamos. Porque toda prática profissional necessita de prévia reflexão, caso contrário, pode se perder e estar fadada a ser mais  uma perda de tempo e energia, em outras palavras, fracasso.

Esperamos que cada opinião trazida consiga mexer com o senso crítico de cada um que nos assisitir e sirva como ponto de reflexão. Que possamos todos ser sujeitos atuantes no desenvolvimento de uma dança do ventre mais Arte, reconhecida e valorizada.

Com vocês, nosso 1º vídeo, dividido em 2 partes com o tema: Panorama da Dança do Ventre no Brasil. Assitam, opinem, espalhem!

– 1ª parte, com Lulu Sabongi e esta que vos escreve, Viviane Amaral:

– 2ª parte, com Lory Moreira, Roberta Salgueiro e Elaine Aliaga:

E vocês? O que tem a dizer?

Abraços meus e toda equipe Raqsat!

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*dicas de alguns bons livros aqui ó: Livros sobre dança.

Carta para quem começa estudar Dança do Ventre.

Sei que  a maioria das pessoas que acessam o blog é composta de profissionais e/ou bailarinas com muitos anos de estudo, por isso, normalmente, meus posts são voltados para a reflexão da nossa prática e do meio profissional. Porém, nesta semana, escrevi um texto para minhas alunas que estão iniciando na dança e achei que seria interessante compartilha-lo aqui também.  Foi escrito num momento onde relembrava minhas impressões e constatações sobre a dança quando iniciava meu caminho por ela.

Como aproveitar da melhor forma seu curso de Dança do Ventre.

Aventurar-se pela Dança Oriental, fazer bailar o ventre, é  um grande passo para o auto-conhecimento. Nessa dança, restabelecemos a conexão com aspectos de nossa feminilidade que até então podiam estar abafados pela forma como agimos no dia-a-dia, influenciadas por um mundo onde a dinâmica social ainda se encontra, na maioria das situações, pautada na visão masculina que privilegia a força e a competitividade.  Cuidamos muito de nossa aparência externa, de nossa pele e cabelos, procuramos roupas que revelem nossa beleza mas também nos  apresente ‘poderosas’ para a sociedade e isso em si não é um problema. O problema surge quando focamos demais no externo e não damos tanta atenção para o nosso interior. E então, por dentro, nossa aparência é frágil, nosso emocional por vezes é totalmente dependente da presença do outro e vivemos driblando nossas inseguranças, inquietando-se com uma certa sensação de inadequação que aparece sem mais nem menos, e soa assim, como um sussurro que nos pergunta: ” por que você está  fazendo algo ao contrário do que pede  a sua natureza?”

Por isso, ao iniciar um curso de Dança do Ventre e começar a restabelecer o contato com esta parte adormecida,  é natural que nos sintamos estranhas, “peixes fora d’água”, desajeitadas. Um corpo acostumado a um mundo de ações e regras rígidas, enrijece-se também e não teria como ser diferente, afinal, é através do corpo que o mundo chega até nós. E, muitas vezes, nem nos damos conta disso.

Portanto, a primeira orientação que lhe dou é: tenha paciência com você, com a forma como seu corpo responde e até com o que lhe parece ser desobediência dele. Veja… O passo mais difícil você já deu e foi o de vir para o curso.  Daqui pra frente, tudo é uma questão de tempo e de saber administrar a ansiedade.  Todo corpo é capaz de dançar e não será diferente com você.

A aula dura apenas 1h30, 2h no máximo. É um tempo curto se pensarmos no tanto de “trabalho” que temos pela frente. Por isso, procure estar realmente presente, não só de corpo, mas de mente. Parece ser redundante falar sobre isso, mas eu mesma já cheguei a fazer aula de dança preocupada com os afazeres e problemas que tinha deixado do lado de fora da sala, e com toda certeza afirmo: é a pior forma de boicote que pude me fazer. Passei 1h30 “inútil”, pois não resolvi o que estava lá fora e não fixei o que aconteceu na aula. Lembre-se: o que está fora da sala de aula, está fora e se você veio dançar é porque o que tem a resolver pode esperar.

Siga fielmente as orientações que são dadas sobre a forma de se fazer os movimentos, mas faça-os dentro do seu tempo, respeitando a velocidade com que seu corpo consegue internaliza-los. Resista ao ímpeto de se comparar com a colega do lado, porque ela é diferente de você e isso de nada adianta, a não ser aumentar a sua ansiedade e afastar a sua concentração. Repetir os movimentos é um processo necessário para que o corpo se familiarize com a nova forma de se movimentar. Costumo fazer sempre esta comparação…. A dança é uma forma de linguagem. Ora, aprender uma nova língua leva tempo, requer da boca uma forma diferente de movimentar a língua e os lábios.  O cérebro precisa organizar as palavras de uma outra forma para poder formar frases e as cordas vocais se combinarão de um novo jeito para pronunciar uma palavra nunca dita antes. Se você já aprendeu inglês, se lembrará disso…. Como foi a primeira vez em que falou a palavra world ou Massachussets? Viu, com a dança é igual… Você não aprendeu inglês em 1 semana, não se tornou fluente em 1 mês. Toda grande bailarina, antes de ser grande, passou pelas mesmas etapas que você…. Aprendeu primeiro os movimentos (as letras), suas combinações (as sílabas), colocou-os num ritmo (as palavras), em seguida organizou todos eles e dançou (formou as frases!).

Rs… Como existem relações entre as coisas, não é?

Todo aprendizado requer a fixação do que foi aprendido e isso é feito num momento que costumo chamar de “eu-comigo-mesma”.  Em casa, num local onde você não será interrompida,  revise os movimentos dados em aula. Acredite em mim, isso é essencial para o seu progresso na dança.  Também é comum acontecer de um movimento que tenha “empacado”  na hora da aula aconteça depois, no dia seguinte, durante seu treino, embaixo do chuveiro, por exemplo. por que isso acontece? Bem, acho que temos várias respostas para isso. Uma das minhas hipóteses é que nossos músculos, durante a aula, podem tensionar devido a atividade, atrapalhando a realização de um ou outro movimento. Some isso ao fator emocional (a pressa de querer acompanhar a professora, a turma). O cenário está feito e dele, não há movimento que saia.

O treino em casa também é importante para que você se experimente dançando uma melodia árabe, constatando como é diferente a estrutura dessas músicas em relação às nossas. Encaixe os passos que você aprendeu com o ritmo que estiver ouvindo, vá  afinando seu ouvido à fala árabe e descubra que toda música tem um humor (triste, alegre, sensual, misteriosa….). Aliás, a maioria das descobertas são feitas nessas horas. Anote-as se achar melhor e socialize-as na aula.

Aliás, falando em anotações, algumas pessoas gostam de trazer um caderninho para aula para registrar os passos que foram dados e as informações que  dou durante a aula. Acho válido esse recurso, porque ajuda a  lembrar de exercícios que podem ser esquecidos de uma semana para outra, como por exemplo, uma sequencia coreográfica, a dica de um cd, de uma música, livro ou filme. Apenas lembre-se que essas anotações não devem tomar todo o tempo em que você está treinando um movimento. Uma dica é escreve-las em forma de tópicos e em casa, ao chegar da aula, você poderá elabora-las melhor. Um ótimo exercício para a memória e de assimilação do que foi dado!

Aprender uma dança que não faz parte da nossa cultura demanda conhecer a cultura da qual esta dança faz parte. Devemos lembrar que em toda dança existe a expressão do pensamento social, não só individual. A dança é um organismo vivo, que é influenciado pelo movimento da sociedade e pela forma como esta sociedade pensa, age, vive. Não há como desatrelar uma coisa da outra. Além das informações trazidas em aula,  procure também fontes confiáveis para conhecer melhor os aspectos da cultura árabe. Trago 3 dicas de livro para você começar: “Árabes”, de Mark Allen, “Uma mulher egípcia”, de Jean Sadat e “Orientalismo”, de Edward Said.

Não tenha receio em perguntar ou em contribuir com as descobertas que faz… A sua dúvida pode ser a dúvida de outras pessoas também, e sua descoberta pode ajudar a colega que está confusa.  Um dos tantos benefícios que a dança tem é o de agregar as pessoas, enriquecer a nossa vida social.  De certa maneira, está se reproduzindo na sala de aula de Dança do Ventre o mesmo costume das mulheres árabes dentro de suas casas, quando reunidas com suas irmãs, filhas, tias e avós partilham a dança umas com as outras, ora ensinando as mais novas, ora comungando o puro prazer de dançar. Somos, nesse momento, mulheres com um mesmo objetivo.

Eu, como professora, desejo tornar mais fácil sua caminhada pela Dança do Ventre.  Na verdade, estamos na mesma estrada, eu só estou um pouco à frente de você. Por estar à frente, sei das coisas que  podem ser encontradas pelo caminho e tenho condições de lhe ajudar a lidar com elas. Toda dança é uma jornada de centenas de paisagens e tenha sempre em mente que, mais importante que o final da viagem, é o desfrutar do trajeto.

Seja bem vinda.

Com carinho, Vivi.

Especiarias: o tribal dos sentidos

Para mim, um espetáculo de dança só é bom quando acaba e saio dele com vontade de ver mais.  E foi isso o que aconteceu na noite de ontem, depois de uma experiência lúdica repleta de sons, cores e movimentos proporcionada pelas meninas do grupo Masala, as experts Daiane Ribeiro, Fernanda Zahira Razi e Bruna Gomes.

O espetáculo Especiarias, sugestivo nome dado para o evento, mostra como fazer um show de dança sem cair na repetição ou no mais do mesmo.  Com a proposta de passear pelos ritmos e danças dos 5 continentes através da dança tribal, Especiarias surpreende o espectador a cada número. Músicas bem escolhidas, de sonoridades interessantíssimas e dançarinas com alta capacidade interpretativa, que me levaram a concluir o quanto é agradável assistir um artista da dança que tem vivência em outras esferas artísticas e melhor… Sabe como utilizar esse conhecimento.

O tribal é uma modalidade de dança onde a liberdade coreográfica trafega confortavelmente. Generoso,  nele é possível trazer elementos de todas as danças e vesti-los sem pudor junto de sua roupagem multicolorida. Entretanto, para faze-lo bem e com verdade, é preciso conhecer as estruturas dessas outras danças, caso contrário corre-se o risco de apresentar algo falso e remendado. E é justamente este quesito que considero mais forte nas meninas do Masala: o estudo. Para quem conhece um pouco de dança étnica e folclórica (que são coisas diferentes), fica nítida a constatação de que o grupo pesquisou e treinou cada gesto, até que se tornasse tão natural quanto o ondular dos braços tão conhecidos da dança tribal. Então podemos ver os mudras temperando o bellywood (sim, com ‘e’), os quadris frenéticos das danças da Polinésia, as pernas e os braços grandes e vigorosos do flamenco, a malemolência brejeira apimentando o tribal brasileiro, o corpo sério e expressivo do contemporâneo. Foi, com certeza, essa feliz combinação de diversos ‘temperos’ que conferiu sabor e cor às 20 coreografias do espetáculo. E sem nenhuma indigestão. 😉

As meninas do Masala conseguem construir um espetáculo de narrativa fluida, onde cada número ao mesmo tempo em que se revela continuidade do anterior, é portador de uma nova mensagem.    Foi comovente o solo de Bruna Gomes, num tribal de influência chinesa que encheu o teatro de delicadeza ao manusear seu fan veil em forma de leque, e de força ao transforma-lo num tipo de espada.  Outro momento emocionante do espetáculo foi o tributo à maternidade, tendo como destaque a linda Daiane Ribeiro, no esplendor de sua 3ª gestação. O número ‘Sereias’ é de um envolvimento que  transporta com facilidade a plateia para o universo das estórias desses seres, ora malvados, ora brincalhões, mas sempre sedutores…. A noite trouxe duas surpresas ainda: a presença da carismática bailarina Karina Iman, atualmente trabalhando nos Emirados Árabes, em duas performances vigorosas e de técnica apurada. Sua comunicação com o público é fácil e ele responde de bom grado, melhor dizer, fascinado. A outra surpresa se chama Karine Neves. Karine desponta como uma bailarina tribalesca de presença cênica forte e visceral, é bom ve-la em cena. A prova de que o Masala está dando bons frutos.

Os vídeos do espetáculo de ontem (12/05/2011) ainda não estão disponíveis, mas encontrei um pequeno clipe contendo pedaços das coreografias apresentadas. Assim que estiverem disponíveis no Youtube prometo atualizar aqui no blog, portanto, considere o vídeo abaixo apenas um aperitivo. Obviamente, as sensações que descrevi acima só são sentidas estando ao vivo com o grupo.

Minhas andanças pelo Brasil me faz ter contato com artistas que normalmente – e infelizmente – são conhecidos apenas em sua terra ou arredores. Acredito que se tenho a possibilidade de estar diante de culturas e formas tão diferentes de se fazer dança, tenho também a responsabilidade de levar essas ‘boas novas’  ao conhecimento de quem não pode ve-las, pois isso, além de ser uma forma de divulgar a arte, é também abrir caminho para que exista maior interação entre todos e todas que fazem dança. Afinal, somos um povo de criatividade acentuada, que nos leva a fazer coisas muito boas, e precisamos – todos – tomar conhecimento disso.

Martha Graham e Madonna

Todos nós, bailarinos, temos referências artísticas que nos servem de inspiração na hora de criar ou enriquecer uma performance.  Na dança do ventre, por exemplo,  inspiram-me Orit Maftsir, Fifi Abdo, Autuumn Ward, Lulu… Mas, além dos muros do nosso bellyword,  também me inspira o trabalho de outros artistas, alguns do teatro e outros da música, como, por exemplo, ninguém  menos que Madonna (huuum, não torce o nariz, vai….).

Aliás…. Sou fã dessa artista há exatos 26 anos. Pronto, entreguei minha idade, rs.

Talvez algumas pessoas não saibam, mas no princípio de sua carreira Madonna desejava ter sucesso como dançarina. Chegou inclusive a cursar Dança na Universidade de Michigan.  Uma das referências em dança que Madonna possui é Martha Graham, cujo 117º aniversário se comemora hoje, 11 de maio. Martha nasceu em 1893, na Pensilvânia (E.U.A), e é tida como “o Picasso da dança”. Faz parte da mesma geração de Isadora Duncan e assim como ela, engrossou o movimento de oposição as restrições rigorosas do ballet clássico ao investir numa dança de expressividade acentuada e centrada totalmente na figura feminina. Martha trazia em seu trabalho  aspectos da formação puritana da sociedade americana, mitologia grega e da cinematografia do século XX a fim de “expressar algo essencial sobre a condição da mulher americana” (O’Brien, 2008). Madonna, oriunda de família católica e suburbana,  se identifica com a proposta de Martha e assim podemos encontrar em suas composições coreográficas traços de um discurso feminista traduzido em performances fortes e provocativas, as quais, apesar de também conter referências de outras danças, tem no trabalho de Graham sua base principal.

Madonna sustentou o estúdio de Martha Graham até seu último ano de vida (1991),  e em 1994 fez um tributo à grande artista através das fotos abaixo:

E as duas, juntinhas, num momento divertido de suas vidas (eu acho…):

Penso, inclusive, que por causa desta e outras referências que Madonna utiliza em seus trabalhos existe muito o que se observar se deixarmos enxergar essa artista apenas como produto comercial. Mas isso fica para outro dia. Bem, finalizando, um pouco dessas duas musas, únicas na forma como revolucionaram a arte a que pertencem.

Martha e sua famosa obra, Lamentation (ouçam a reflexão que ela faz no início do filme, lindíssima!).

E Madge, em toda sua irreverência, força e rebeldia.

Referência Bibliográfica: O’Brien, Lucy – Madonna:50 anos – a biografia do maior ídolo da música pop. Nova Fronteira, Rio de janeiro, 2008.

Dos nossos questionamentos.

Antes de ser Arte, a função da dança é o de ajudar o ser humano a se soltar de seus cárceres emocionais. Ao ser elevada na condição de Arte, se apresenta como a fantasia  que suspende o espectador de sua realidade cotidiana. Toda dança é um imaginário de coisas.

Para o bailarino, a dança  guarda degradês e texturas variadas que tem a função de tornar atraente sua performance e facilitar sua comunicação.  Um bailarino profissional nunca dança sozinho, ele tem sempre a curiosidade do público respirando perto de si. E como um condutor,  trata de fazer o espectador enxergar todas as cores e sentir todas as texturas daquilo que seu corpo ‘escreve’ no espaço vazio.

Em todos os casos, a dança sempre deve libertar. Seja das emoções angustiantes, da realidade maçante, da falta de possibilidade ou do excesso de seriedade.

Você tem se sentido livre?

Voltando a dar aulas.

Na próxima quinta-feria, dia 5 de maio, volto a dar aulas de Dança do Ventre.

Afastei-me durante quase  2 anos da docência em dança. Por opção? Sempre é por opção, né… Meio difícil de admitir, mas quando paro pensar no que me levou a isso lembro que optei em me dedicar à carreira de pedagoga e à pós em Psicomotricidade porque eram duas áreas que sorriam para mim na ocasião.  E gosto de verdade de cada uma delas, foi muito bom ter dado este tempo. Outras questões como minha vinda para Porto Alegre e uma fase tempestuosa na minha vida pessoal no ano passado também fizeram com que eu me recolhesse.  Mas as tempestades passam,  e com o carinho da família e de amigos mais que amados, somado à uma boa dose de força de vontade, consegui reunir novamente forças pra voltar a fazer aquilo que gosto tanto, ensinar.

Voltar à sala de aula depois desse tempo ter um ar de estreia. Sou a mesma professora de sempre e ao mesmo tempo não sou.  É que hoje vejo um horizonte maior no trabalho com dança , que me permite tecer diversas compreensões sobre o ensino dessa arte e planejar diversos tipos de prática. Alguns conceitos para mim amadureceram e deram frutos. Um professor de dança é como um professor de música em sua tarefa de ajudar o aluno a tocar a música com seu próprio corpo. Mas em todo corpo está impressa uma história, e essa história é peça importante na progressão da dança no meu aprendiz. Esse aspecto exige de mim mais do que cuidado ao lidar com o corpo do outro, é preciso ter afeto antes de tudo. Acredito que é do afeto que surge o cuidado, o respeito e a tão urgente segurança.

Também tenho me preocupado quanto a formatação das aulas, na metodologia que vou aplicar, porque estou insatisfeita do que tenho visto por aí como produção de dança. Sei que a probabilidade de vir a ser professora de alguém que deseja o estrelato é menor do que a de ser professora de alguém que procura a dança como hobby, mas isso não diminui a preocupação com o resultado. Assim, construo minha metodologia buscando valorizar a capacidade criativa de minhas alunas (ou alunos, se vierem), ajudando-as a se expressarem de maneira verdadeira e não coladas na expressão da bailarina X ou Y, ou mesmo na minha.

Infelizmente, acompanhei e vivenciei aulas de dança onde o trabalho criativo quando não é escasso, é regulado pelo o que se afirma como “certo” ou “errado” dentro da DV. Observei também como é difícil encontrar aulas que proporcionem às alunas com maior tempo de estudo, quando a técnica já está mais bem resolvida,  a investigação da própria dança, que levaria à coleta de novas  informações e outras possibilidades de expressão (o que ajudaria a construir uma dança mais rica de elementos, mais interessante de ser vivida e vista). Arrisco em afirmar que hoje, de maneira geral, vivemos em DV uma “campanha” – consciente ou não – pelo copie-cole nas construções coreográficas. A dança das grandes bailarinas que deveria servir de inspiração  passou a ser bitolação. Talvez seja isso que explique a ocorrência de tantas danças “Franskstein”: amontoado de  fragmentos de passos e sequencias da dança de bailarinas renomadas, acrescidas de  pouca ou nenhuma expressividade ou entrega.  Talvez por isso vemos sempre mais do mesmo nos eventos e espetáculos de dança do ventre.

Referências em dança são apenas isso, referências, material de consulta, fonte de inspiração. O que deve prevalecer na dança é a sua assinatura, sua marca, não a bailarina que você estuda, assim eu acredito.

(Acabei descambando para outro assunto…. rs)

Mas voltando à falar sobre dar aulas, finalizo dizendo que me sinto feliz, retomando o caminho certo da vida. Sim, porque em meio as 500 mil crises que já tive com a DV, e que sempre me fizeram refletir sobre quem eu sou na dança, uma questão que nunca me preocupou era sobre a docência. Eu gosto de ser professora, tenho tesão por ensinar. Assim, espero ser parte de um conjunto em prol da melhoria da qualidade de vida de quem me procurar.