Além da técnica.

“Por que a dança encanta as pessoas? Por que movimentamos energia quando dançamos.” (palavras de Zaíra)

E para ilustrar a frase, alguém que tem me ensinado muito mais do que bailar a dança cigana. Sayonara Linhares, minha professora, amiga e irmã, numa profunda e vigorosa interpretação do bailado cigano.

Gestando a cigana.

Deixa eu compartilhar com vocês um cadim das impressões iniciais com a  dança cigana…

Passado o primeiro impacto de estar em contato com algo que desejava fazer há algum tempo, a dança cigana tem se revelado um canal por onde a minha criatividade corre livre, leve e solta. Mas não confunda. Não estou dizendo que ela seja um “faça qualquer coisa”. Existe sim uma estrutura, uma linguagem que é dela e que precisa ser apreendida se vc quiser ser uma ‘gitana’. São detalhes que diferem dependendo da origem da dança. Por exemplo, percebo na dança cigana espanhola os movimentos de braços típicos do flamenco, a ênfase no tórax, o olhar por cima do ombro, a pisada mais forte. Já na indiana, os movimentos de cabeça, os giros com contratempo e os passos curtos e rápidos a caracteriza. A dança cigana  turca demonstra mais força na atitude da dançarina e existem os gestos que simbolizam palavras. A dança cigana egípcia das gawazees (como já sabem minhas belas bellydancers), tem no quadril o ponto central dos movimentos, com batidas muito fortes e grandes. Em todas elas, embora umas mais e outras menos,  o manuseio da saia é constante e essencial no diálogo da cigana com seu espectador. Permito-me dizer que a cigana ‘fala’ pela saia… E digo à vocês: é um prazer indescritível manejar todo aquele tecido!

Entender o que está sendo cantado, ou qual é a natureza da melodia caso ela seja apenas instrumental, é fundamental para construir a sua expressão na dança. Mas calma,  não se desespere se vc não entender o romani cantado na música (como eu).  As melodias são claras quanto ao sentimento que carregam e fazem isso de uma forma que eu ainda não sei dizer a vocês, no resto, a sua intuição orienta. E sempre dá certo.

Na dança cigana não existem muitas regras fechadas quanto à ordem dos movimentos. Isso porque a natureza da dança cigana é livre, como seu povo. Repare… A gente não vê cigano indo para uma escola  de dança cigana aprender a dançar. Ele aprende com sua família, com os mais velhos, nas festas… Cada um dança a seu modo, segundo a sua personalidade. Isso fica nítido ao ve-los dançar. É, sem dúvida alguma, uma dança onde você se revela totalmente. (hum… Isso pode assustar! rsrsrs)

Durante as aulas e no meu estudo em casa, confesso que percebo muito da odalisca enquanto danço a cigana. Está nas mãos, nos braços, no quadril… Fico me policiando para que isso não aconteça e então, Sayo, (minha super profe), me diz para não me preocupar, que deixe a odalisca sair…. Embora eu, nerdinha de dança com mania de querer fazer tudo ipsis literis, relute, começo a compreender que ela está certa. A odalisca faz parte de mim, ela está encravada no meu corpo, são dez anos de convivência e eu gosto dela. Não dá pra negligencia-la. De repente, posso ser uma cigana com traços árabes, e então não estarei fora de contexto.

Pensando melhor… Talvez seja pela odalisca que chegarei à ghazya!

Volto depois com mais reflexões.