Como essa história de querer ser professora-bailarina começou.

O ponto de partida para a minha estrada na dança não começou com a dança do ventre (esta é minha companheira ‘apenas’ 1 década).  Na minha formação de bailarina, digamos assim, existiram passagens pelo ballet quando criança,  ginástica rítmica na pré-adolescência, mais mocinha mergulhei no jazz – adoro jazz! –  já adulta me aventurei pelo contemporâneo entre algumas oficinas e aulas regulares, até parar no grupo de dança-teatro Labirinto (RJ), cuja experiência foi  muito enriquecedora do ponto de vista profissional e pessoal.  Na maioria dessas modalidades atuei apenas como aprendiz, apresentando-me ocasionalmente, sem ter a intenção de me profissionalizar como  fiz com a DV.

Porém, na lista acima falta citar 1 modalidade das danças que estudei.  Optei falar em separado porque ela envolve questões profundamente afetivas, consequentemente, muito significativas para mim.  Esta modalidade que falo a partir de agora é a dança folclórica brasileira.

Só que antes de entrarmos nessa história preciso contextualizar o cenário no qual meu envolvimento aconteceu e que  ajudará vocês a entender o motivo desse carinho especial que tenho pela dança folclórica.

–  O primeiro contato

Minha família por parte de pai tem uma veia artística bem forte.  Sou sobrinha de maestro, cantor de MPB, pintor, desenhista, escritor, artesão e de uma bailarina (que tb é pedagoga como eu). Esta bailarina se chama Cristina, ‘Tia Cristina”  para mim e todos os seus alunos. Foi ela quem iria me iniciar na arte da dança, aos 4 anos,  através das aulinhas de divertidas e saltitantes do baby-class.

Mas ballet não era a minha praia, mesmo a aula sendo divertida. Recordo  que as sapatilhas sempre apertavam o meu pé gordinho e eu reclamava muito para vesti-las. Vestir o collant também era um parto. A escola em que estudava estimulava a autonomia de seua alunos e por isso eu deveria tentar me vestir sozinha. Logicamente, na minha pouca habilidade infantil, colocar o collant apertado e de elanca era uma tarefa um tanto quanto árdua, na qual  acabava me atrapalhando toda e por isso vivia com ele vestido ao contrário – de trás para frente.

eu e Tia Cris!

Ainda bem que minha tia é uma pessoa desassossegada  e não se contentava em ensinar apenas o ballet . Felizmente, essa mesma escola valorizava muito a pedagogia da arte como meio de construção do conhecimento. E assim, minha tia, que além de bailarina-pedagoga é também folclorista, resolveu que seria por este rico viés da nossa cultura que ela iria ‘trabalhar’ com a garotada.

E deu muito certo. As cantigas e as danças folclóricas  são fáceis de aprender, e como falam de  elementos e personagens presentes na realidade e no  imaginário infantil,  logo eu e as outras crianças estávamos muito serelepes e entrosados com as ‘novidades’ que aprendíamos.   Até no Castro Mendes – um teatro famosão  de Campinas – ela nos levou pra dançar. Era uma farra, exatamente como tem que ser todo aprendizado infantil.

Eu, no teatro, aos 6 anos: uma "típica" mulher rendeira.

E embora para mim isso fosse tudo uma grande brincadeira, hoje eu constato que foi nessa época que a sementinha do amor à dança e à cultura brasileira foi plantada dentro de mim.

Bem. Tempos depois fui estudar em outra escola, de linha pedagógica mais tradicional e assim as aulas de dança folclórica acabaram, mas voltaram quando eu tinha 13 anos, pela mesma mão daquela mulher desassossegada,  a tia Cristina.

– O grupo Centro de Tradições, ou CT para os íntimos.

Muito antes da época em que dava aulas nas escolas, e ainda muito, mas muito nova, tia Cristina começava a desenvolver um projeto inédito no Brasil, levando em consideração os moldes em que era criado: um grupo de danças folclóricas brasileiras dentro de uma instituição militar. O intuito primeiro do grupo era o de ser um canal de  divulgação das danças brasileiras, através de apresentações que seriam (e ainda são) tanto de caráter artístico como educativo. Assim, contando com a parceria entre a Escola de Cadetes do Exército (EsPeCEx), o grupo de aproveitamento folclórico  CT – Centro de Tradições nasceu. Era 1950.

Formavam o grupo, portanto,  os meninos que iam estudar na EsPeCEx  e eram  adolescentes saídos de todos os lugares deste país e as alunas do Conservatório Musical Carlos Gomes,  na época um local referência no ensino de música, dança e teatro na cidade de Campinas.

Uma das formações do CT na década de 70.

A formação do grupo é ‘mutante’ . Os meninos faziam parte do CT apenas enquanto estivessem estudando em Campinas (naquela época, 3 anos). As meninas ficavam mais, porém, à medida em que iam crescendo, namorando e casando, iam também saindo do grupo. E assim, o CT se configura por ter diversas gerações. Filhos dos que já fizeram parte do grupo já dançaram e daqui a pouco, seus netos virão também. É uma família enorme.

Visita da galera de 87-89 no ano passado, respirando novamente o ar da nossa querida sala de ensaios. Grupo atual está na frente, com as meninas sentadas e o grupo dos anos 80 atrás. Eu tô aí. Adivinhe onde...

Entrei para o grupo aos 13 anos. Era 1986. E foi complicado… Eu era a única ‘pirralhinha’ da turma. A garota  mais nova depois de mim já tinha 18. Cinco anos de diferença quando se tem 30 e 35 não é nada, mas na adolescência, é tudo. Me sentia bem deslocada (e ainda era ‘lôca’ pelo Menudo, mas não me atrevia a dizer isso no grupo nem sob tortura, imagina o king-kong que eu ia pagar…).

Dançávamos muitas vezes em pares e para agravar a situação, tinha que dançar  ‘olhando nos olhos de garoto‘ , como dizia minha tia na época…   Vergonha em último grau. Mas continuei. No começo, eu confesso, achava todas as danças estranhas, as músicas esquisitas. Sobretudo porque cantigas do folclore nordestino ou gaúcho, com todo o seu linguajar característico não faziam parte da minha realidade paulista e interiorana. Mas ainda assim insisti.  Fiz meu vestido de prenda com seus quinhentos saiotes.  As saias e as batas para dançar o Norte e o Nordeste… Aos poucos fui me soltando no grupo, enfrentei a timidez e fiz amizades, até descobrir que havia mais 2 garotos que também tinham a minha idade e isso fez a gente se aproximar e compartilhar nossos pontos de vista sobre o mundo naquela fase de pós-puberdade. E era amizade mesmo, relacionamento de irmãos.  O melhor é que vingou, já dura 25 anos e é um dos presentes mais preciosos que a dança me trouxe. (Fred e Moraes, beijão!)

Existe um outro presente que a dança me trouxe, conto no final. Porque ele é mais do que especial.

1/3 da turma na foto.

– Mas porque dançar no CT foi tão bom?

Ah, por muitas coisas.  Dentre elas, porque foi onde comecei a experimentar o que é a tal da relação público-artista. E falando em público, é preciso dizer que este sempre ganhou com as apresentações do CT. Minha tia tem o cuidado de apresentar cada uma das danças explicando o que são, de onde são, quando e porque são dançadas. O público, portanto, sabe o que vê.  É uma aula de cultura brasileira através da música e da dança. Do carimbó do Pará à ciranda pantaneira, passando pelo côco de Pernambuco, tambor de crioula, frevo, maracatu, catira e ciranda paulista, chegando à danças gauchescas, tudo era – e ainda é – explicado. E quem faz  parte do grupo ganha embasamento cultural, educando os ouvidos para apreciar os mil ritmos musicais que existem neste país.

A geração 90 do grupo.

Por causa disso, ser integrante do CT é ter a oportunidade de aprender muito sobre os “quintais” desse  país gigante e plural. E mais do que isso, é  entender como a sua identidade paulista – ou carioca, baiana, gaúcha, amazonense, goiana… – se encaixa nas tantas outras identidades brasileiras. Fazer parte do CT é  saber por que nossa cultura é diferente de estado para estado através de um dos canais mais poderosos de expressão humana: a dança.

De todas as danças que já estudei ou tive oportunidade de experimentar, constato com muita certeza que a dança folclórica é a mais orgânica de todas elas por ser a mais legítima expressão corporal da alegria, da tristeza, do júbilo, da raiva, do desejo, enfim, do entendimento da vida. Essa legitimação se comprova quando vemos que existe na origem da dança folclórica o gesto cotidiano: o arrastar da rede do pescador, a pisada que amassa a terra para afundar a semente, o arrumar da saia para parecer mais composta e elegante. Por isso é difícil assistir a dança folclórica e não se envolver com a sua visceralidade. E se vc se arrisca a dançar, mesmo não sabendo, quando se dá conta, já está dançando.

Meninas da geração 2000 e a Tia Cristina indo com a música!

Esses são alguns dos motivos pelos quais acho necessário que a dança folclórica esteja presente na escola, no desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Nela temos uma variedade imensa de recursos didáticos. Dela é possível discutirmos nossos valores e nossa moral, por que somos de um jeito e não de outro. Sentimos no corpo  o ritmo das nossas melodias, e experimentamos como podem ser as  emoções de uma realidade que está distante de nós.

É essa consciência que me fez escrever sobre dança na graduação e por reconhecer a sua importância comecei a pesquisar  mais sobre a nossa dança, e estudar mais sobre folclore e arte-educação. Assim, acreditando, consegui  levar a dança folclórica para algumas escolas, ministrei oficinas para professores de todos os níveis de ensino e ajudei  em projetos sociais. Fácil não é, ouço mais não do que sim. Entretanto como acredito,  prossigo.  É que acima disso, existe um sentimento que move essa minha ‘saga’: gratidão. Compartilhar  tudo o que aprendi dessa experiência com o CT é uma das formas que tenho para retribuir tudo o que o grupo me proporcionou e me ajudou a virar cidadã.

A outra forma é esta aqui: vou dedicar alguns posts do blog para falar sobre a nossa dança brasileira, folclórica.  Um pouco de cada vez, para vocês degustarem, escutarem as músicas e verem os vídeos (os que eu conseguir encontrar, pois vocês não imaginam como certas coisas nessa área são difíceis de se obter!). Acho que bailarinos e alunos de dança vão se beneficiar das informações que virão. Sobretudo para quem se dedica a estudar a dança estrangeira, do outro  – assim como eu em relação à dança do ventre  – acredito que muito se agrega . Por quê? Bem. Acho que entender a dança daquele que está a um oceano de distância de nós com base naquilo que vc tem quando conhece mais a sua própria, te dá mais repertório de associações, de representações corporais, que vão reverberar num trabalho muito mais rico e interessante para você e para quem te vê.

de prenda, tchê!

Ah, quer saber qual foi a outra coisa preciosa que a dança me trouxe, né?

Pois bem… Foi meu marido ♥.

Mas essa história eu deixo para outro dia, ok?