Especiarias: o tribal dos sentidos

Para mim, um espetáculo de dança só é bom quando acaba e saio dele com vontade de ver mais.  E foi isso o que aconteceu na noite de ontem, depois de uma experiência lúdica repleta de sons, cores e movimentos proporcionada pelas meninas do grupo Masala, as experts Daiane Ribeiro, Fernanda Zahira Razi e Bruna Gomes.

O espetáculo Especiarias, sugestivo nome dado para o evento, mostra como fazer um show de dança sem cair na repetição ou no mais do mesmo.  Com a proposta de passear pelos ritmos e danças dos 5 continentes através da dança tribal, Especiarias surpreende o espectador a cada número. Músicas bem escolhidas, de sonoridades interessantíssimas e dançarinas com alta capacidade interpretativa, que me levaram a concluir o quanto é agradável assistir um artista da dança que tem vivência em outras esferas artísticas e melhor… Sabe como utilizar esse conhecimento.

O tribal é uma modalidade de dança onde a liberdade coreográfica trafega confortavelmente. Generoso,  nele é possível trazer elementos de todas as danças e vesti-los sem pudor junto de sua roupagem multicolorida. Entretanto, para faze-lo bem e com verdade, é preciso conhecer as estruturas dessas outras danças, caso contrário corre-se o risco de apresentar algo falso e remendado. E é justamente este quesito que considero mais forte nas meninas do Masala: o estudo. Para quem conhece um pouco de dança étnica e folclórica (que são coisas diferentes), fica nítida a constatação de que o grupo pesquisou e treinou cada gesto, até que se tornasse tão natural quanto o ondular dos braços tão conhecidos da dança tribal. Então podemos ver os mudras temperando o bellywood (sim, com ‘e’), os quadris frenéticos das danças da Polinésia, as pernas e os braços grandes e vigorosos do flamenco, a malemolência brejeira apimentando o tribal brasileiro, o corpo sério e expressivo do contemporâneo. Foi, com certeza, essa feliz combinação de diversos ‘temperos’ que conferiu sabor e cor às 20 coreografias do espetáculo. E sem nenhuma indigestão. 😉

As meninas do Masala conseguem construir um espetáculo de narrativa fluida, onde cada número ao mesmo tempo em que se revela continuidade do anterior, é portador de uma nova mensagem.    Foi comovente o solo de Bruna Gomes, num tribal de influência chinesa que encheu o teatro de delicadeza ao manusear seu fan veil em forma de leque, e de força ao transforma-lo num tipo de espada.  Outro momento emocionante do espetáculo foi o tributo à maternidade, tendo como destaque a linda Daiane Ribeiro, no esplendor de sua 3ª gestação. O número ‘Sereias’ é de um envolvimento que  transporta com facilidade a plateia para o universo das estórias desses seres, ora malvados, ora brincalhões, mas sempre sedutores…. A noite trouxe duas surpresas ainda: a presença da carismática bailarina Karina Iman, atualmente trabalhando nos Emirados Árabes, em duas performances vigorosas e de técnica apurada. Sua comunicação com o público é fácil e ele responde de bom grado, melhor dizer, fascinado. A outra surpresa se chama Karine Neves. Karine desponta como uma bailarina tribalesca de presença cênica forte e visceral, é bom ve-la em cena. A prova de que o Masala está dando bons frutos.

Os vídeos do espetáculo de ontem (12/05/2011) ainda não estão disponíveis, mas encontrei um pequeno clipe contendo pedaços das coreografias apresentadas. Assim que estiverem disponíveis no Youtube prometo atualizar aqui no blog, portanto, considere o vídeo abaixo apenas um aperitivo. Obviamente, as sensações que descrevi acima só são sentidas estando ao vivo com o grupo.

Minhas andanças pelo Brasil me faz ter contato com artistas que normalmente – e infelizmente – são conhecidos apenas em sua terra ou arredores. Acredito que se tenho a possibilidade de estar diante de culturas e formas tão diferentes de se fazer dança, tenho também a responsabilidade de levar essas ‘boas novas’  ao conhecimento de quem não pode ve-las, pois isso, além de ser uma forma de divulgar a arte, é também abrir caminho para que exista maior interação entre todos e todas que fazem dança. Afinal, somos um povo de criatividade acentuada, que nos leva a fazer coisas muito boas, e precisamos – todos – tomar conhecimento disso.

A dança das mil e uma noites…

Sou apreciadora apaixonada da dança do mowashahat*,  essa “poesia movimentada” cuja musicalidade – e não a dança, que só foi estruturada bem depois – é originária do século X.  A atmosfera da dança, onde a tônica é a amorosidade do diálogo corporal entre os bailarinos, é um aspecto que me transporta para o cenário das conhecidas estórias das mil e uma noites e combina direitinho com o imaginário que eu tinha sobre o mundo árabe muito antes de me tornar uma aprendiz e profissional de dança do ventre.

Na apresentação abaixo vemos uma preciosidade… Um vídeo inteiro de Gamal Seif e Auftritt Manis – que soube fazer par com Gamal de uma forma segura e muito competente, ponto pra ela – numa coreografia de mowashahat esplendorosa, um verdadeiro pas-de-deux oriental, cheio de sentimento e riqueza coreográfica!

 

* Ou muwashahat / muwashah, no singular.

Smirnova Svetlana

Tenho admiração pelas bellydancers russas.  Não sei se o que chega até nós é filtrado ou se a Rússia é uma terra farta de virtuoses. A forma como combinam limpeza de movimentos, força na expressão e leitura minuciosa é impecável, muito bem dosada. E ainda fazem tudo isso transbordando feminilidade pelos poros, cabelos e cada um dos canutilhos da roupa que vestem.

Acredito que parte dessa característica seja oriunda da natureza das própria dança folclórica russa, que ressalta  e enaltece os atributos de cada sexo,  valorizando tanto o aspecto da  força e virilidade masculinas quanto a delicadeza e a beleza femininas. Vamos lembrar também que a Rússia é a principal referência do Ballet, é a terra de grandes dançarinos e berço de grandes obras da música clássica. Na dança, sobretudo a clássica, é notório o virtuosismo técnico dos bailarinos e o talento dramático existente em suas performances, basta assistir qualquer peça de ballet russo e vc saberá do que eu falo (ou veja o maravilhoso Mikhail Baryshnikov ). Dessa forma, penso que seja natural que o convívio com estas expressões artísticas reverbere, de alguma forma e positivamente,  na formação de uma bellydancer russa.

Minha primeira russa favorita foi a Nour, até aí nenhuma novidade. Através dela conheci outras, tão refinadas quanto a mesma. Uma delas me chamou muito a atenção: Smirnova Svetlana. Estilo egípcio até a última miçanga, imprime uma dança forte, visceral, que exala a energia das mulheres que sabem ser doces sem serem submissas e sensíveis sem serem ingênuas.

Escolhi dois vídeos para vocês analisarem:

No festival  Ahlan Wa Sahlam:

Neste segundo vídeo, embora a roupa seja terrível (de uma apelação totalmente desnecessária, no meu ponto de vista) e exista uma forte vibe de Dina em alguns momentos, o talento dessa moça consegue se sobrepor.

(Sugiro que assista os dois em tela cheia. Muito melhor.)

Repaginada necessária e Soraia Zaied.

Bailarinos, bailarinas e  apreciadores dessa arte. Esse blog terá cara nova brevemente. O nome vai mudar. Mas vocês serão todos avisados e o endereço para chegar até aqui continuará o mesmo.

Aceito também sugestões de assuntos que gostariam de ver publicados aqui. Claro que o tema deverá girar em torno de dança. Para os demais assuntos, o blog é outro.

Enquanto isso, deixo vocês com a última da Soraia, neste final de semana, em São Paulo.

(Não se esqueça que aguardo vossa apreciação. :D)