Projeto RAQSAT EM PAUTA – A dança do ventre em debate.

Contente, receosa, ansiosa e curiosa. São exatamente essas 4 palavrinhas que definem o que sinto neste momento.

Iniciar um projeto é caminhar por uma estrada onde o que se conhece é apenas a paisagem imediata, aquela que está visível até onde o olho alcança…  Você sabe o que está em volta e um pouco a frente dos seus passos, mas faz apenas uma ideia do que pode encontrar pelo caminho, precisamente, na paisagem que os olhos ainda não veem.

Gosto de ler sobre dança*. Não só sobre dança do ventre – que, aliás, possui uma bibliografia terrivelmente pobre, mas esse não é o assunto de hoje.  Leio desde o que ‘me cai na mão’  ao que vem por indicação. E costumo vasculhar algumas coisas pela internet, desde o blog mais pueril até o artigo acadêmico da Scielo.  É…. Vamos dizer que sou eclética, rs. Mas é que penso que tão importante quanto dançar, ler sobre dança afeta a nossa compreensão sobre as coisas que estão no entorno e no centro da mesma e que influenciam a forma como ela evolui. Em outras palavras, são importantes para entender porque essas coisas são do jeito que são.

Por causa desse hábito, desenvolvi o gosto de falar sobre dança, seja através da escrita (como faço aqui no blog) ou sentada com amigos da dança. Aliás, para mim não há coisa que faça o tempo passar mais depressa do que estar ao lado de gente que faz e pensa dança numa prosa séria-divertida (e se tiver uns petiscos do lado melhor ainda, hehehe…). Graças aos deuses, encontrei muita gente boa pra essas conversas, algumas pela internet, mas a maioria foi pela vida mesmo… Olha, dentre outras coisas, esse é um dos maiores  presentes que a dança me trouxe: pessoas com as quais posso dividir as inquietações, as alegrias,  as revoltas e as ideias sobre essa coisa chamada Dança!

Uma dessas pessoas é a Elaine, dona do blog Tagarelando sobre dança. Primeiro a gente se conheceu via internet, naquelas comunidades que existiam no Orkut, lá pelos idos de 2003…. Sendo minha conterrânea, não demorou pra que a gente se conhecesse numa de minhas viagens à nossa terra natal. A amizade cresceu  e por termos afinidades na forma como vemos dança  é comum trocarmos ideias pelos menos 2 vezes por semana, via Skype, sobre as coisas que envolvem nossa tão querida, e muitas vezes incompreendida, dança do ventre.

Há alguns meses atrás, numa tarde fria aqui no Sul (e acho que nem tanto em Campinas…), conversávamos, melhor, desabafávamos, eu e Elaine, sobre algumas situações que nos inquietam com a dança.  Tentando achar uma solução para todos os incômodos que  pinicavam nossas pobres almas, imaginamos como seria legal se houvesse na prática da dança do ventre – fosse em aula, workshop ou seminário – um momento pra se debater sobre dança, de forma bem embasada e argumentada, que desenvolvesse o olhar crítico (no sentido de analítico) sobre a dança.

E como  toda ideia que vem chegando, chegando até que chega, nascia, naquele momento,  o Projeto “Raqsat em Pauta.

“A união faz a força”, diz o ditado, e obedientes a ele convidamos mais gente pra essa empreitada…  Assim chamamos outras 3 pessoas as quais temos um imenso respeito pelas profissionais sérias que são, e porque além da admiração profissional existe o vínculo afetivo da amizade que nos une: Roberta Salgueiro, Lory Moreira e Lulu Sabongi.  Com a aceitação de todas, o time das Raqsat estava formado.

Mas como faríamos isso se estamos, cada uma, em regiões diferentes desse imenso país? Bem, a resposta é óbvia: o mundo http://www.  Entretanto, deveria ser algo ainda não explorado pelo meio. Os fóruns das redes sociais são um modelo gasto… Poderíamos usar um blog para ser este espaço, mas ainda não era o ideal…. Então,  ideia do vídeo nos pareceu ser mais atraente afinal, a força da imagem de quem fala, com a entonação da voz são aliados na hora de se comunicar.  Certo?

Como dizemos na descrição de cada vídeo, não temos o intuito de colocar “verdades absolutas” em nossas opiniões. Também temos a consciência de que não é possível esgotar os temas que trazemos em poucos minutos de vídeo. Mas sentimos que é necessário dar voz à quem faz a dança profissional nesse país, quem vive e paga suas contas com ela. Por quê? Porque quando falamos estamos analisando, quando analisamos, comparamos, constatamos e enxergamos o que há de diferença e semelhança no objeto do qual falamos. Porque toda prática profissional necessita de prévia reflexão, caso contrário, pode se perder e estar fadada a ser mais  uma perda de tempo e energia, em outras palavras, fracasso.

Esperamos que cada opinião trazida consiga mexer com o senso crítico de cada um que nos assisitir e sirva como ponto de reflexão. Que possamos todos ser sujeitos atuantes no desenvolvimento de uma dança do ventre mais Arte, reconhecida e valorizada.

Com vocês, nosso 1º vídeo, dividido em 2 partes com o tema: Panorama da Dança do Ventre no Brasil. Assitam, opinem, espalhem!

– 1ª parte, com Lulu Sabongi e esta que vos escreve, Viviane Amaral:

– 2ª parte, com Lory Moreira, Roberta Salgueiro e Elaine Aliaga:

E vocês? O que tem a dizer?

Abraços meus e toda equipe Raqsat!

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*dicas de alguns bons livros aqui ó: Livros sobre dança.

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Martha Graham e Madonna

Todos nós, bailarinos, temos referências artísticas que nos servem de inspiração na hora de criar ou enriquecer uma performance.  Na dança do ventre, por exemplo,  inspiram-me Orit Maftsir, Fifi Abdo, Autuumn Ward, Lulu… Mas, além dos muros do nosso bellyword,  também me inspira o trabalho de outros artistas, alguns do teatro e outros da música, como, por exemplo, ninguém  menos que Madonna (huuum, não torce o nariz, vai….).

Aliás…. Sou fã dessa artista há exatos 26 anos. Pronto, entreguei minha idade, rs.

Talvez algumas pessoas não saibam, mas no princípio de sua carreira Madonna desejava ter sucesso como dançarina. Chegou inclusive a cursar Dança na Universidade de Michigan.  Uma das referências em dança que Madonna possui é Martha Graham, cujo 117º aniversário se comemora hoje, 11 de maio. Martha nasceu em 1893, na Pensilvânia (E.U.A), e é tida como “o Picasso da dança”. Faz parte da mesma geração de Isadora Duncan e assim como ela, engrossou o movimento de oposição as restrições rigorosas do ballet clássico ao investir numa dança de expressividade acentuada e centrada totalmente na figura feminina. Martha trazia em seu trabalho  aspectos da formação puritana da sociedade americana, mitologia grega e da cinematografia do século XX a fim de “expressar algo essencial sobre a condição da mulher americana” (O’Brien, 2008). Madonna, oriunda de família católica e suburbana,  se identifica com a proposta de Martha e assim podemos encontrar em suas composições coreográficas traços de um discurso feminista traduzido em performances fortes e provocativas, as quais, apesar de também conter referências de outras danças, tem no trabalho de Graham sua base principal.

Madonna sustentou o estúdio de Martha Graham até seu último ano de vida (1991),  e em 1994 fez um tributo à grande artista através das fotos abaixo:

E as duas, juntinhas, num momento divertido de suas vidas (eu acho…):

Penso, inclusive, que por causa desta e outras referências que Madonna utiliza em seus trabalhos existe muito o que se observar se deixarmos enxergar essa artista apenas como produto comercial. Mas isso fica para outro dia. Bem, finalizando, um pouco dessas duas musas, únicas na forma como revolucionaram a arte a que pertencem.

Martha e sua famosa obra, Lamentation (ouçam a reflexão que ela faz no início do filme, lindíssima!).

E Madge, em toda sua irreverência, força e rebeldia.

Referência Bibliográfica: O’Brien, Lucy – Madonna:50 anos – a biografia do maior ídolo da música pop. Nova Fronteira, Rio de janeiro, 2008.

Dos nossos questionamentos.

Antes de ser Arte, a função da dança é o de ajudar o ser humano a se soltar de seus cárceres emocionais. Ao ser elevada na condição de Arte, se apresenta como a fantasia  que suspende o espectador de sua realidade cotidiana. Toda dança é um imaginário de coisas.

Para o bailarino, a dança  guarda degradês e texturas variadas que tem a função de tornar atraente sua performance e facilitar sua comunicação.  Um bailarino profissional nunca dança sozinho, ele tem sempre a curiosidade do público respirando perto de si. E como um condutor,  trata de fazer o espectador enxergar todas as cores e sentir todas as texturas daquilo que seu corpo ‘escreve’ no espaço vazio.

Em todos os casos, a dança sempre deve libertar. Seja das emoções angustiantes, da realidade maçante, da falta de possibilidade ou do excesso de seriedade.

Você tem se sentido livre?

Ser professora de Dança do Ventre, por Rosane Sampaio.

Escolher a sala de aula costuma ser a saída para a maioria das bailarinas que encaram a DV profissionalmente porque proporciona uma certa ‘segurança’ financeira quando as apresentações não conseguem ser o suficiente para pagar as contas no final do mês. Entretanto, ao enveredar-se pelo caminho da docência, a bailarina se depara com questões que talvez não tenha refletido antes e com as quais se verá desafiada a resolver. É uma escolha delicada, de muita responsabilidade e que demanda, antes de gostar de dança, gostar de ensinar gente. E gostar de ensinar gente implica possuir uma série de atributos de natureza altruísta e generosa.

Para esmiuçar um pouco disso que falei, compartilho com vocês o texto de minha amiga Rosane Sampaio, uma querida bailarina de Salvador, que assim como eu, tem no coração a paixão tanto pela dança como pela docência. Em claras e objetivas palavras, Rose (como é carinhosamente chamada por quem é de perto) aborda o tema passando pelas principais condutas que um professor(a) de DV deve trazer consigo.

Que possamos refletir e pensar sobre todas essas condutas. Com vcs, Rosane, ou simplesmente, Rose:

Ser professora de dança árabe

por Rosane Sampaio

Para sermos professores, precisamos ter, em primeiro lugar, o desejo de transmitir, repassar aquilo que aprendemos, sem restrições e amarras. Além disso, é preciso ter consciência de que sempre estaremos aprendendo, seja com nossas alunas, seja com outros profissionais.

Assim como para aprender algo é necessário dedicação, ensinar qualquer coisa também requer a mesma postura. Por isso acredito que nós, professoras de dança, devemos sempre estar bem informadas e à frente no conhecimento para que nossas alunas tenham sempre confiança em nós e nos vejam como suas referências.

Devemos fazer sempre cursos, estudar músicas árabes, saber o que as alunas estão ouvindo de música árabe, o que elas estão vendo pelos sites de relacionamento e de vídeos (Youtube, Google), o que elas estão lendo sobre dança, orientá-las sempre a fazer aulas com profissionais que vêm de fora a acrescentar no seu aprendizado. E a coisa mais preciosa: NÃO PODEMOS CULTIVAR O PRECONCEITO.

Digo sempre que, quando definimos em nossas vidas que seremos professores, abdicamos do direito de ter qualquer tipo de preconceito. QUANDO DIGO QUALQUER TIPO DE PRECONCEITO É QUALQUER UM MESMO. Precisamos conduzir o olhar da aluna para que esta desenvolva um comportamento flexível às diferenças, sejam elas de corpo, idade, orientação sexual, religiosa e de gênero.

Falo de tantas coisas que não se ligam diretamente com o ensino da dança porque acho que nós só desenvolvemos bem uma tarefa se deixamos que este conhecimento transforme toda a nossa vida! Nem que o processo dure apenas de alguns meses! Tem que valer a pena!

Além disso, nós somos professores de dança árabe e educadores!! Mexemos com
pensamentos e universos individuais, cada um com sua carga de experiência, e toda a vida é delicada e repleta de sensações.

Fora o contexto da cultura árabe – e falo cultura árabe porque acredito que a aluna deve ser estimulada a conhecer o universo cultural no qual se insere a dança que elas escolheram aprender –, temos sempre que abrir os canais da nossa mente e do nosso corpo, sensibilizá-los ao máximo. Ouvir muita música, ir muito ao cinema, ler muita prosa e muito verso, trocar experiências, valorizar aquilo que gostamos, rir, rir muito, meditar, ficar um dia sem saber o que fazer e não fazer nada. Enfim, ser hedonista. Sentir muito prazer! Isso ajuda, e muito, a
dançar. E se não tiver isso bem definido na vida, vamos deixar que a dança estimule o prazer.

Em sala de aula, devemos sempre estimular o exercício, pois sem a prática não vamos a lugar algum. Por causa desta minha forma de pensar e executar tarefas, já recebi apelidos carinhosos de sargento e de general. E foram mesmo carinhosos, porque, ao mesmo tempo que tenho rigor na cobrança dos exercícios, entendo e acolho as dificuldades das minhas alunas, sempre elevando as suas qualidades.

 

Ainda acredito que em sala devemos desenvolver o coleguismo, a amizade e a confiançaentre as alunas. Elas precisam se enxergar com respeito e admiração, assim como devem respeitar a orientação da professora. Por outro lado, pressupõe-se que esta, por ter mais experiência, deve saber direcionar suas alunas à melhor forma de aprender dança árabe, para ser profissional ou, apenas, para seguir dançando, como um hobby.

Por fim, acredito que a nossa missão, acima de todas as coisas, é despertar nas nossas alunas o olhar para o que é belo, para criação, para a leveza, para o prazer, para a boa convivência e para a aceitação individual. Esta é uma tarefa para aquelas que, relamente, acreditam que podem se responsabilizar a abrir um novo universo para quem quer descobrir algo novo.

Então, eu tenho a chave. Espero que todas as que se propuserem a isso também tenham.

***

Você poderá ler este texto aqui também.

 


Origem revelada.

Descobri de onde veio a inspiração para as roupas do tribal:

(Obviamente isso é uma brincadeira. Na verdade, reverencio Ney Matogrosso e toda sua genialidade artística, assim como nossas bailarinas tribalescas – e muito criativas!)

As não famosas…

…e  talvez até mal-afamadas raqsat* do Cairo, portando sua natural ‘deselegância’ em roupinhas indefectíveis e condutas de palco nada adequadas, com sua dança que talvez nunca apareça nos palcos do Ahlan wa Salam,  de Raqia Hassan.

Mas tão legítimas na sua expressão…

…na sua alegria…

… e na forma como são “desencanadas”.

Assista, olhando além da dança.

* dançarinas