Relendo a tradição.

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A dança das mil e uma noites…

Sou apreciadora apaixonada da dança do mowashahat*,  essa “poesia movimentada” cuja musicalidade – e não a dança, que só foi estruturada bem depois – é originária do século X.  A atmosfera da dança, onde a tônica é a amorosidade do diálogo corporal entre os bailarinos, é um aspecto que me transporta para o cenário das conhecidas estórias das mil e uma noites e combina direitinho com o imaginário que eu tinha sobre o mundo árabe muito antes de me tornar uma aprendiz e profissional de dança do ventre.

Na apresentação abaixo vemos uma preciosidade… Um vídeo inteiro de Gamal Seif e Auftritt Manis – que soube fazer par com Gamal de uma forma segura e muito competente, ponto pra ela – numa coreografia de mowashahat esplendorosa, um verdadeiro pas-de-deux oriental, cheio de sentimento e riqueza coreográfica!

 

* Ou muwashahat / muwashah, no singular.

Você é tratada como merece?

Hoje eu vou falar de uma coisa que está atravessada na garganta há muito tempo, uns 2 anos, mais ou menos.  Quem gostar bem, quem não gostar, amém.

Existem certos procedimentos nos bastidores da DV que me deixam revoltada. A relação contratante X músicos – dançarinas é uma delas. É uma questão que, ao meu ver, ainda mostra o quanto o meio precisa amadurecer e rever seus conceitos.

Num show de dança do ventre com música ao vivo o que é mais importante: músicos ou bailarinas? A meu ver, os dois. São peças que se complementam, que juntas fazem o show acontecer. Podem acontecer separadas, mas juntas são bem mais interessantes e fortes.  Por serem de igual importância deveriam merecer atenção igual de quem as contrata, não é verdade?

Entretanto, é com muita tristeza que digo:  não é isso que observo em 4 de cada 5 shows que vou.

Vamos aos fatos.

Há muito tempo , eu estava como plateia num show onde se apresentaria um conhecido cantor árabe e sua banda, aquela, onde todos tem o mesmo sobrenome. O show começou com 1 hora de atraso e sem o cantor, que por ser considerado a ‘estrela’ da festa, entendeu que deveria dar o ar de sua graça bem mais tarde. Entretanto, garçons serviam deliciosos salgadinhos e acho que isso distraiu e abrandou a ansiedade dos presentes.

Enquanto isso acontecia, de onde eu estava sentada, conseguia ver as dançarinas  que estavam programadas para dançar naquela noite. Já estavam todas prontas. Elas ficavam reunidas numa espécie de hall improvisado que antecedia a área onde  dançariam. Não, não havia coxia, nem alguma proteção para aquelas que iriam entrar em cena dali a instantes e assim como eu, muitos conseguiam ve-las, conversar com as mesmas e até tirar foto. Essa exposição quebrou, em parte, o clima de supresa que todo show deve ter.

Ah! Acrescento mais um detalhe: este hall dava para uma área ao ar livre e tinha uma pequena cobertura, insuficiente para abrigar todas as moças. E era de noite e estava frio.

Bem, enquanto as apresentações rolavam, soube, através de um dos organizadores, que aquele cantor e sua banda chegariam dali à 1h e meia. Dito e feito. Pontualmente, 2h e meia depois do início previsto para o show começar, ele chega. Risonho, cortejado por bellydancers tão conhecidas do meio quanto ele, bem pimpão. Então, sobe ao palco tranquilo, como se todo aquele atraso fosse absolutamente natural para uma ‘estrela’ de sua grandeza.

As bailarinas que iam dançar com o ilustre convidado – profissionais que possuem nome no meio (umas mais conhecidas, outras menos), algumas donas de estúdios de dança, outras professoras, esperaram todo aquele tempo no vão que descrevi acima, enroladas em seus véus, tentando se aquecer do frio. Obviamente que, ao entrar em cena, com a musculatura fria e tensa depois da espera interminável, a resposta do corpo na dança não foi a mesma que seria se estivessem num recinto preservado, concentrando-se e aquecendo-se, exatamente como deve ser a preparação de um bailarino antes de entrar em cena.

Ao final do show fui cumprimentar uma das bailarinas, amiga minha, e questionei sobre o lugar em que estavam ‘abrigadas’ e aí veio  a confirmação de algo que eu já suspeitava: havia um camarim sim, mas destinado apenas ao cantor e sua banda. As bailarinas trocaram-se num banheiro, pequeno para a quantidade de mulheres que havia e precário na estrutura, com espelhos e iluminação insuficientes para suas preparações.

Você , companheira que dança, já viu algo parecido? Eu acho que sim.

Situações como as desse lamentável episódio repetem-se sempre, em qualquer lugar desse país como eu mesma já pude constatar,  sendo plateia em uns e bailarina convidada em outros.  O mais absurdo e contraditório disso tudo é notar que as ocasiões onde mais se vê descaso com a forma de se receber/tratar as bailarinas, sobretudo as locais,  são os eventos realizados pelas próprias pessoas da dança! Mas tudo soa como natural, cabível, como se existisse um consenso não verbal de que no meio da dança esse é um comportamento aceito porque todos ‘se ajudam’ e já que bailarina tá é a fim de dançar , topa qualquer coisa e falando seu nomezinho no final do show ela já sai no lucro, numa ingênua opinião. E essa é a ‘lei de mercado’.

Você concorda? Eu estou falando algo que não existe?

Observo uma certa confusão em se categorizar quem é mais ou menos importante num evento de dança e isso leva à um comportamento onde notamos que a desvalorização começa dentro do próprio meio. É certo que os nomes de peso na dança – sejam músicos ou bailarinas – fizeram por onde para desfrutarem das regalias de onde estão. Merecido, justo.  Mas isso não deveria implicar, para o contratante, em tratar o outro como menor, ou como alguém que se contenta apenas em estar ali, dançando no seu evento, fazendo volume na foto. Isso é subestimar o preparo que esta pessoa teve para estar ali, é subjulgar sua qualidade artística.

Quero deixar claro que tenho muito respeito pelos poucos músicos e cantores de música árabe que existem nesse país e reconheço aqui a importância dos mesmos na divulgação da música,  assim como as valiosas informações a respeito desta cultura. Mas também tenho respeito pelas bailarinas que estudam e se dedicam com afinco à arte da DV, precisando gastar mais do que ganham com dança e ainda assim, em 90% dos casos, comparecendo de graça nos eventos. Ora! Essas mulheres são tão artistas quantos os músicos! Não merecem o mesmo tipo de tratamento de quem as contrata? Não merecem ser pagas por abrilhantar os eventos alheios? Por acaso os músicos tocam de graça? Por que essa discriminação?

Minha criticidade me leva a pensar que  a responsabilidade por essa ‘diferença’ de tratamento foi provocada, ou é mantida, em parte, pelas próprias bailarinas. Talvez por serem em número muito maior que os músicos, talvez pela gana de querer dançar sempre e em qualquer lugar, talvez pra fazer nome e conseguir aluna. Não vou julgar se isto está certo ou errado, até porque estou apontando hipóteses. Além disso, cada um sabe os meios que usou – e porque os usou – para tentar se promover. Mas penso que para tudo há um limite, uma dose certa. O tempo que uma bailarina leva para se profissionalizar demandou dinheiro,  energia, criatividade, abdicação e concentração.  Assim como o tempo de profissionalização de um músico também demandou. Portanto, é justo que esta bailarina receba por seu trabalho e seja tratada dignamente, como profissional, como artista que é.

Sei que não vou mudar a opinião de ninguém com o que escrevi aqui, e também não é com esse intuito que escrevo sobre isso. Posso ter sido dura ou generalista demais em algumas partes, mas acredito ser necessário trazer certos ‘dogmas’ à superfície para serem questionados, e quem sabe – na minha fantasia – revistos e anulados. Não gosto de dogmas, são deterministas, repressores da ação, avessos à mudanças. Não se diz que se ‘deve ser a mudança que se deseja ver’? Então porque se continua a reproduzir os mesmos comportamentos? Será que mesmo sendo capazes de fazer melhor, ainda nos vemos  apenas como bailarinas de dança do ventre e não como artistas da dança? Percebe a diferença? Na condição de apenas bailarina minha função é a reproduzir o que já está estabelecido pelas escolas, pelos vídeos, pelos workshops. Como artista da dança meu papel é fazer desses canais a base para a minha criação, que levará a minha marca, terá o meu estilo.

É preciso saber em que papel estou pra saber ‘brigar’ pelo meu direito.

Música e fronteira.

De blog em blog a gente acha coisas muito legais e necessárias para serem divulgadas. Do blog da amiga-irmã Elaine cheguei ao Blog da Ju, o “um pouco de oriente em português”. Nele , um post me chamou atenção. Uma cantora, árabe-judaica, Sarit Hadad, regravou a música Enta Omri da nossa conhecida Um Kulthum. Tal feito tem gerado revolta entre egípcios mais ortoxos, que não gostam de ver a obra da maior cantora egípcia em gargantas ‘estrangeiras’. Transcrevendo um pedaço do que a Ju fala no blog: “Chegam a dizer que roubaram a terra e agora roubam a “cultura”.

Este é o vídeo da Sarit:

Particularmente, gostei bastante dessa versão.

E vocês, o que pensam a respeito?