Respiração

Vida é inspiração. Arte é expiração.


Pensamento meu enquanto devaneio sobre a significação da Arte em minha vida e, dessa vez, não falo apenas da dança.
Como seria humanidade sem a Arte?
Honestamente, acho que seria no mínimo triste, quase morta, cruelmente mecânica e gélida.
Existe uma citação de Mokiti Okada, (fundador da Igreja Messiânica) que diz assim: “Se a Arte não existisse, a vida seria seca e sem sabor, como se estivéssemos dentro de uma cela de pedras.” Esta ideia nos fornece uma boa pista da real importância da Arte em nossas vidas: desanúvio das nossas emoções, sobretudo aquelas difíceis de serem verbalizadas.

A Arte torna dizível a palavra muda.

Ensina o artista e também o apreciador. Toda obra artística comunica, reverbera, inquieta, espelha. A Arte é didática. Conta a vida através da cor, da melodia, do barro, do gesto. Por instantes, suspende o sujeito de sua realidade maçante e previsível, de asfalto e de muros, abrindo em sua mente espaços arejados que o faz pensar em coisas ainda nem cogitadas por si próprio. Com essa habilidade, a Arte não precisa ser panfletária.

É por isso que necessitamos dela, foi para isso que a inventamos: para que ela nos resgate das águas densas do cotidiano. É a mão quente sobre o peito que se movimenta esvaziando os pulmões lotados das obrigações, tensos pelas provocações e saturados pelas palavras não ditas.

Vida é inspiração. Arte é expiração.

De quantas formas um cisne pode morrer?

No meio da dança em geral, a releitura de uma coreografia conhecida como “clássica” costuma causar, num primeiro contato,o sentimento de desconfiança por parte de quem irá assistir. Conheço até algumas pessoas que sentem desconforto ao ouvir essa palavra, como se tivessem sido acometidas instantaneamente por gases.

Mas o que é fazer uma releitura?

Fazer uma releitura é refazer uma narrativa, onde se usa elementos de outros campos artísticos, porém, sem deixar de mostrar a principal ligação com a obra matriz.  Entretanto, mexer na estrutura lapidada e consolidada de uma obra de arte, nesse caso um clássico da dança, pode soar até como uma heresia e todo bom bailarino(a) sabe disso. Dando um exemplo, imagine alguém chegar para aquela sua tia beata e dizer que vão tocar a Ave Maria em ritmo de samba*?

Tudo se torna muito mais audacioso – e alguns diriam ‘leviano’-  quando uma modalidade de dança, considerada ‘menor’ ou popularesca demais pelos intelectuais do meio (e os nem tanto),  se propõe a reler uma peça tradicional pertencente a outro tipo de dança, esta, de caráter acadêmico, mais “sério” e que “exige mais estudo”. Os narizes costumam torcer até chegar na nuca.

Mas nós, que acreditamos que em se tratando de arte todas as possibilidades de expressão são viáveis, e por que não, necessárias para a renovação da mesma, obviamente não compartilhamos dessa ideia.Compreendemos que para cada modalidade de dança existem direcionamentos específicos, seja no trabalho corporal (técnica), quanto no desenvolvimento da expressão e comunicação com o público (cênica). Nenhum desses  direcionamentos é mais ‘fraco’ ou mais ‘ forte’ que o outro, visto que em se tratando se habilidades corporais e comunicativas, o que é forte para mim pode ser fraco para você e vice-versa.

Então, vamos ao porquê de toda essa reflexão.

Um rapaz, que ama a dança assim como eu e e você,  sem nada demais aparentemente se não fosse pelo nome pitoresco – John Lennon da Silva – dançarino de street dance, se candidata a um reality show de danças pela televisão.  Questionado pelos jurados sobre o que iria apresentar, sofreu, ao responder, a mesma desconfiança que falei no início do post. Julgaram (mal) sua vestimenta e a escolha do repertório. E o que se viu, foi isso:

O que vejo quando ele dança?

Eu vejo o cisne, com suas penas, mergulhado na angústia e no desespero, tendo seu desejo de viver se esvaindo.Como quando a gente perde uma luta por algo que ama demais.

Chamo isso de arte.

 

*Jorge Aragão fez isso. Veja aqui.

Eu, dançando. (uma reflexão muito, mas muito pessoal)

“Por que não exercitar a observação de seu próprio corpo com o mesmo olhar que você adota diante do espelho ao experimentar um blazer novo?” (Ivaldo Bertazzo)

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Ver a filmagem de nossa própria dança é , antes de tudo, um exercício de tolerância e desprendimento, e se essas 2 palavras não cabem a vc, cabem perfeitamente em mim. É porque passei grande parte de minha vida de bailarina não me sentindo à vontade vendo minha própria performance. Buscava incessantemente mais erros que acertos. Meu pensamento caminhava por vários julgamentos, todos severos, como uma madre superiora que lhe aponta os pecados. Porém, como se provocasse, lutando embaixo de todos esses ‘sermões’ conseguia escutar a voz que reconhecia a bailarina em potencial que há em mim. Mas porque é que ela não vinha à tona quando eu mais precisava? Onde ela se escondia e porquê?

Ao me ver na música, concluía que meu corpo parecia não querer abrir mão do velho repertório de gestos, como se tivesse encontrado no mesmo o único lugar possível para que minha bailarina explorasse toda a sua dança. Era um porto seguro, a minha zona de conforto.

Tentei então fazer o exercício proposto por Bertazzo no começo desse texto. Mas é difícil reeducar o gesto no corpo… Procurei fazer os “ajustes” no “blazer” para que ele ficasse confortável, não me apertasse e nem sobrasse tecido. Sua cor era diferente, meio incomum, mas preciso admitir que valorizava o tom da minha pele. Ainda assim, por alguns instantes não me identifiquei com o novo traje e lembrei do meu blazer velho, em cor neutra, que apesar de puído e com alguns furinhos, abraçava o meu corpo com seu tecido macio e me esquentava. E de tão confortável que era, me acomodava. Não sentia vontade de trocar de roupa, nem para ver como eu ficava.

(Agora começo a entender onde a minha bailarina se escondia e porquê.)

A reeducação do corpo na dança, dentro de toda gama dos seus gestos, do seu tônus, tem direta ligação com a disponibilidade com que me ofereço diante dos desafios que a vida me apresenta. Como poderei, dentro da rigidez com que conduzo as minhas ações, desejar que meu corpo seja flexível? Como pode uma mente de pensamentos herméticos deixar que o corpo se abra para novas sensações? Não há como…Uma coisa segura a outra e a impede de acontecer.

E então, dentro dessa reeducação corporal procurei reeducar meu olhar sobre mim mesma. Ao invés de buscar erros, procurei desenvolver a tolerância  a partir do entendimento de que os tais ‘ajustes’ estão sendo feitos… Modifiquei a forma como me vejo ao compreender que como máquina meu corpo é capaz de responder prontamente se assim eu prepara-lo. Aceitei que meu corpo, como sendo o único canal por onde me relaciono com o mundo, demonstrará as marcas que esse mundo imprime em mim, sempre, independente da minha vontade.

Dançar é saber ajustar o corpo no ritmo da música, mas sem deixar de ser, irremediavelmente, generoso consigo mesmo.

Enquanto isso, no Egito…

…os paradigmas estão se quebrando.

O grau de coragem desse povo, nunca visto antes em sua história. O grito de ‘basta!’ diante de um governo corrupto, cerceador e déspota. A busca pela liberdade, em todas as suas facetas e texturas. E o que a dança tem ver com isso?

Tudo. A Dança caminha abraçada com a sociedade e acompanha seu movimento, se ajusta à sua forma e se regula ao que esta sente.

Portanto, estejamos atentos e cientes sobre o que virá. Alguém arrisca um palpite?

E Nietzsche também dançava.

Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar. Apenas na dança eu sei como contar a parábola das coisas mais elevadas. Aqueles que eram vistos dançando eram tidos como insanos por aqueles que não conseguiam ouvir a música. Dou como disperdiçado todo dia em que não se dançou. Dançar, em todas as suas formas, não pode ser excluído do currículo da educação nobre. Dançar com os pés, com ideias, com palavras e, preciso acrescentar, que também se deve dançar com a caneta. (Friedrich Nietzsche)