Carta para quem começa estudar Dança do Ventre.

Sei que  a maioria das pessoas que acessam o blog é composta de profissionais e/ou bailarinas com muitos anos de estudo, por isso, normalmente, meus posts são voltados para a reflexão da nossa prática e do meio profissional. Porém, nesta semana, escrevi um texto para minhas alunas que estão iniciando na dança e achei que seria interessante compartilha-lo aqui também.  Foi escrito num momento onde relembrava minhas impressões e constatações sobre a dança quando iniciava meu caminho por ela.

Como aproveitar da melhor forma seu curso de Dança do Ventre.

Aventurar-se pela Dança Oriental, fazer bailar o ventre, é  um grande passo para o auto-conhecimento. Nessa dança, restabelecemos a conexão com aspectos de nossa feminilidade que até então podiam estar abafados pela forma como agimos no dia-a-dia, influenciadas por um mundo onde a dinâmica social ainda se encontra, na maioria das situações, pautada na visão masculina que privilegia a força e a competitividade.  Cuidamos muito de nossa aparência externa, de nossa pele e cabelos, procuramos roupas que revelem nossa beleza mas também nos  apresente ‘poderosas’ para a sociedade e isso em si não é um problema. O problema surge quando focamos demais no externo e não damos tanta atenção para o nosso interior. E então, por dentro, nossa aparência é frágil, nosso emocional por vezes é totalmente dependente da presença do outro e vivemos driblando nossas inseguranças, inquietando-se com uma certa sensação de inadequação que aparece sem mais nem menos, e soa assim, como um sussurro que nos pergunta: ” por que você está  fazendo algo ao contrário do que pede  a sua natureza?”

Por isso, ao iniciar um curso de Dança do Ventre e começar a restabelecer o contato com esta parte adormecida,  é natural que nos sintamos estranhas, “peixes fora d’água”, desajeitadas. Um corpo acostumado a um mundo de ações e regras rígidas, enrijece-se também e não teria como ser diferente, afinal, é através do corpo que o mundo chega até nós. E, muitas vezes, nem nos damos conta disso.

Portanto, a primeira orientação que lhe dou é: tenha paciência com você, com a forma como seu corpo responde e até com o que lhe parece ser desobediência dele. Veja… O passo mais difícil você já deu e foi o de vir para o curso.  Daqui pra frente, tudo é uma questão de tempo e de saber administrar a ansiedade.  Todo corpo é capaz de dançar e não será diferente com você.

A aula dura apenas 1h30, 2h no máximo. É um tempo curto se pensarmos no tanto de “trabalho” que temos pela frente. Por isso, procure estar realmente presente, não só de corpo, mas de mente. Parece ser redundante falar sobre isso, mas eu mesma já cheguei a fazer aula de dança preocupada com os afazeres e problemas que tinha deixado do lado de fora da sala, e com toda certeza afirmo: é a pior forma de boicote que pude me fazer. Passei 1h30 “inútil”, pois não resolvi o que estava lá fora e não fixei o que aconteceu na aula. Lembre-se: o que está fora da sala de aula, está fora e se você veio dançar é porque o que tem a resolver pode esperar.

Siga fielmente as orientações que são dadas sobre a forma de se fazer os movimentos, mas faça-os dentro do seu tempo, respeitando a velocidade com que seu corpo consegue internaliza-los. Resista ao ímpeto de se comparar com a colega do lado, porque ela é diferente de você e isso de nada adianta, a não ser aumentar a sua ansiedade e afastar a sua concentração. Repetir os movimentos é um processo necessário para que o corpo se familiarize com a nova forma de se movimentar. Costumo fazer sempre esta comparação…. A dança é uma forma de linguagem. Ora, aprender uma nova língua leva tempo, requer da boca uma forma diferente de movimentar a língua e os lábios.  O cérebro precisa organizar as palavras de uma outra forma para poder formar frases e as cordas vocais se combinarão de um novo jeito para pronunciar uma palavra nunca dita antes. Se você já aprendeu inglês, se lembrará disso…. Como foi a primeira vez em que falou a palavra world ou Massachussets? Viu, com a dança é igual… Você não aprendeu inglês em 1 semana, não se tornou fluente em 1 mês. Toda grande bailarina, antes de ser grande, passou pelas mesmas etapas que você…. Aprendeu primeiro os movimentos (as letras), suas combinações (as sílabas), colocou-os num ritmo (as palavras), em seguida organizou todos eles e dançou (formou as frases!).

Rs… Como existem relações entre as coisas, não é?

Todo aprendizado requer a fixação do que foi aprendido e isso é feito num momento que costumo chamar de “eu-comigo-mesma”.  Em casa, num local onde você não será interrompida,  revise os movimentos dados em aula. Acredite em mim, isso é essencial para o seu progresso na dança.  Também é comum acontecer de um movimento que tenha “empacado”  na hora da aula aconteça depois, no dia seguinte, durante seu treino, embaixo do chuveiro, por exemplo. por que isso acontece? Bem, acho que temos várias respostas para isso. Uma das minhas hipóteses é que nossos músculos, durante a aula, podem tensionar devido a atividade, atrapalhando a realização de um ou outro movimento. Some isso ao fator emocional (a pressa de querer acompanhar a professora, a turma). O cenário está feito e dele, não há movimento que saia.

O treino em casa também é importante para que você se experimente dançando uma melodia árabe, constatando como é diferente a estrutura dessas músicas em relação às nossas. Encaixe os passos que você aprendeu com o ritmo que estiver ouvindo, vá  afinando seu ouvido à fala árabe e descubra que toda música tem um humor (triste, alegre, sensual, misteriosa….). Aliás, a maioria das descobertas são feitas nessas horas. Anote-as se achar melhor e socialize-as na aula.

Aliás, falando em anotações, algumas pessoas gostam de trazer um caderninho para aula para registrar os passos que foram dados e as informações que  dou durante a aula. Acho válido esse recurso, porque ajuda a  lembrar de exercícios que podem ser esquecidos de uma semana para outra, como por exemplo, uma sequencia coreográfica, a dica de um cd, de uma música, livro ou filme. Apenas lembre-se que essas anotações não devem tomar todo o tempo em que você está treinando um movimento. Uma dica é escreve-las em forma de tópicos e em casa, ao chegar da aula, você poderá elabora-las melhor. Um ótimo exercício para a memória e de assimilação do que foi dado!

Aprender uma dança que não faz parte da nossa cultura demanda conhecer a cultura da qual esta dança faz parte. Devemos lembrar que em toda dança existe a expressão do pensamento social, não só individual. A dança é um organismo vivo, que é influenciado pelo movimento da sociedade e pela forma como esta sociedade pensa, age, vive. Não há como desatrelar uma coisa da outra. Além das informações trazidas em aula,  procure também fontes confiáveis para conhecer melhor os aspectos da cultura árabe. Trago 3 dicas de livro para você começar: “Árabes”, de Mark Allen, “Uma mulher egípcia”, de Jean Sadat e “Orientalismo”, de Edward Said.

Não tenha receio em perguntar ou em contribuir com as descobertas que faz… A sua dúvida pode ser a dúvida de outras pessoas também, e sua descoberta pode ajudar a colega que está confusa.  Um dos tantos benefícios que a dança tem é o de agregar as pessoas, enriquecer a nossa vida social.  De certa maneira, está se reproduzindo na sala de aula de Dança do Ventre o mesmo costume das mulheres árabes dentro de suas casas, quando reunidas com suas irmãs, filhas, tias e avós partilham a dança umas com as outras, ora ensinando as mais novas, ora comungando o puro prazer de dançar. Somos, nesse momento, mulheres com um mesmo objetivo.

Eu, como professora, desejo tornar mais fácil sua caminhada pela Dança do Ventre.  Na verdade, estamos na mesma estrada, eu só estou um pouco à frente de você. Por estar à frente, sei das coisas que  podem ser encontradas pelo caminho e tenho condições de lhe ajudar a lidar com elas. Toda dança é uma jornada de centenas de paisagens e tenha sempre em mente que, mais importante que o final da viagem, é o desfrutar do trajeto.

Seja bem vinda.

Com carinho, Vivi.

Martha Graham e Madonna

Todos nós, bailarinos, temos referências artísticas que nos servem de inspiração na hora de criar ou enriquecer uma performance.  Na dança do ventre, por exemplo,  inspiram-me Orit Maftsir, Fifi Abdo, Autuumn Ward, Lulu… Mas, além dos muros do nosso bellyword,  também me inspira o trabalho de outros artistas, alguns do teatro e outros da música, como, por exemplo, ninguém  menos que Madonna (huuum, não torce o nariz, vai….).

Aliás…. Sou fã dessa artista há exatos 26 anos. Pronto, entreguei minha idade, rs.

Talvez algumas pessoas não saibam, mas no princípio de sua carreira Madonna desejava ter sucesso como dançarina. Chegou inclusive a cursar Dança na Universidade de Michigan.  Uma das referências em dança que Madonna possui é Martha Graham, cujo 117º aniversário se comemora hoje, 11 de maio. Martha nasceu em 1893, na Pensilvânia (E.U.A), e é tida como “o Picasso da dança”. Faz parte da mesma geração de Isadora Duncan e assim como ela, engrossou o movimento de oposição as restrições rigorosas do ballet clássico ao investir numa dança de expressividade acentuada e centrada totalmente na figura feminina. Martha trazia em seu trabalho  aspectos da formação puritana da sociedade americana, mitologia grega e da cinematografia do século XX a fim de “expressar algo essencial sobre a condição da mulher americana” (O’Brien, 2008). Madonna, oriunda de família católica e suburbana,  se identifica com a proposta de Martha e assim podemos encontrar em suas composições coreográficas traços de um discurso feminista traduzido em performances fortes e provocativas, as quais, apesar de também conter referências de outras danças, tem no trabalho de Graham sua base principal.

Madonna sustentou o estúdio de Martha Graham até seu último ano de vida (1991),  e em 1994 fez um tributo à grande artista através das fotos abaixo:

E as duas, juntinhas, num momento divertido de suas vidas (eu acho…):

Penso, inclusive, que por causa desta e outras referências que Madonna utiliza em seus trabalhos existe muito o que se observar se deixarmos enxergar essa artista apenas como produto comercial. Mas isso fica para outro dia. Bem, finalizando, um pouco dessas duas musas, únicas na forma como revolucionaram a arte a que pertencem.

Martha e sua famosa obra, Lamentation (ouçam a reflexão que ela faz no início do filme, lindíssima!).

E Madge, em toda sua irreverência, força e rebeldia.

Referência Bibliográfica: O’Brien, Lucy – Madonna:50 anos – a biografia do maior ídolo da música pop. Nova Fronteira, Rio de janeiro, 2008.

Dos nossos questionamentos.

Antes de ser Arte, a função da dança é o de ajudar o ser humano a se soltar de seus cárceres emocionais. Ao ser elevada na condição de Arte, se apresenta como a fantasia  que suspende o espectador de sua realidade cotidiana. Toda dança é um imaginário de coisas.

Para o bailarino, a dança  guarda degradês e texturas variadas que tem a função de tornar atraente sua performance e facilitar sua comunicação.  Um bailarino profissional nunca dança sozinho, ele tem sempre a curiosidade do público respirando perto de si. E como um condutor,  trata de fazer o espectador enxergar todas as cores e sentir todas as texturas daquilo que seu corpo ‘escreve’ no espaço vazio.

Em todos os casos, a dança sempre deve libertar. Seja das emoções angustiantes, da realidade maçante, da falta de possibilidade ou do excesso de seriedade.

Você tem se sentido livre?

Eu, dançando. (uma reflexão muito, mas muito pessoal)

“Por que não exercitar a observação de seu próprio corpo com o mesmo olhar que você adota diante do espelho ao experimentar um blazer novo?” (Ivaldo Bertazzo)

***

Ver a filmagem de nossa própria dança é , antes de tudo, um exercício de tolerância e desprendimento, e se essas 2 palavras não cabem a vc, cabem perfeitamente em mim. É porque passei grande parte de minha vida de bailarina não me sentindo à vontade vendo minha própria performance. Buscava incessantemente mais erros que acertos. Meu pensamento caminhava por vários julgamentos, todos severos, como uma madre superiora que lhe aponta os pecados. Porém, como se provocasse, lutando embaixo de todos esses ‘sermões’ conseguia escutar a voz que reconhecia a bailarina em potencial que há em mim. Mas porque é que ela não vinha à tona quando eu mais precisava? Onde ela se escondia e porquê?

Ao me ver na música, concluía que meu corpo parecia não querer abrir mão do velho repertório de gestos, como se tivesse encontrado no mesmo o único lugar possível para que minha bailarina explorasse toda a sua dança. Era um porto seguro, a minha zona de conforto.

Tentei então fazer o exercício proposto por Bertazzo no começo desse texto. Mas é difícil reeducar o gesto no corpo… Procurei fazer os “ajustes” no “blazer” para que ele ficasse confortável, não me apertasse e nem sobrasse tecido. Sua cor era diferente, meio incomum, mas preciso admitir que valorizava o tom da minha pele. Ainda assim, por alguns instantes não me identifiquei com o novo traje e lembrei do meu blazer velho, em cor neutra, que apesar de puído e com alguns furinhos, abraçava o meu corpo com seu tecido macio e me esquentava. E de tão confortável que era, me acomodava. Não sentia vontade de trocar de roupa, nem para ver como eu ficava.

(Agora começo a entender onde a minha bailarina se escondia e porquê.)

A reeducação do corpo na dança, dentro de toda gama dos seus gestos, do seu tônus, tem direta ligação com a disponibilidade com que me ofereço diante dos desafios que a vida me apresenta. Como poderei, dentro da rigidez com que conduzo as minhas ações, desejar que meu corpo seja flexível? Como pode uma mente de pensamentos herméticos deixar que o corpo se abra para novas sensações? Não há como…Uma coisa segura a outra e a impede de acontecer.

E então, dentro dessa reeducação corporal procurei reeducar meu olhar sobre mim mesma. Ao invés de buscar erros, procurei desenvolver a tolerância  a partir do entendimento de que os tais ‘ajustes’ estão sendo feitos… Modifiquei a forma como me vejo ao compreender que como máquina meu corpo é capaz de responder prontamente se assim eu prepara-lo. Aceitei que meu corpo, como sendo o único canal por onde me relaciono com o mundo, demonstrará as marcas que esse mundo imprime em mim, sempre, independente da minha vontade.

Dançar é saber ajustar o corpo no ritmo da música, mas sem deixar de ser, irremediavelmente, generoso consigo mesmo.

Vale muito a pena ver.

Deliciosa a conversa entre Viviane Moser (filósofa) e Dani Lima (bailarina). Me lembra muito as aulas da disciplina Cognição e Dança (do mestrado em Dança da UFBA) e da pós em psicomotricidade… Ah, quer saber o tema da prosa? Corpo e Dança. Te interessa? Tenho certeza que sim. Aqui está o primeiro vídeo do bate papo, clicando no título vc acessa os demais.  Bom divertimento!