De quantas formas um cisne pode morrer?

No meio da dança em geral, a releitura de uma coreografia conhecida como “clássica” costuma causar, num primeiro contato,o sentimento de desconfiança por parte de quem irá assistir. Conheço até algumas pessoas que sentem desconforto ao ouvir essa palavra, como se tivessem sido acometidas instantaneamente por gases.

Mas o que é fazer uma releitura?

Fazer uma releitura é refazer uma narrativa, onde se usa elementos de outros campos artísticos, porém, sem deixar de mostrar a principal ligação com a obra matriz.  Entretanto, mexer na estrutura lapidada e consolidada de uma obra de arte, nesse caso um clássico da dança, pode soar até como uma heresia e todo bom bailarino(a) sabe disso. Dando um exemplo, imagine alguém chegar para aquela sua tia beata e dizer que vão tocar a Ave Maria em ritmo de samba*?

Tudo se torna muito mais audacioso – e alguns diriam ‘leviano’-  quando uma modalidade de dança, considerada ‘menor’ ou popularesca demais pelos intelectuais do meio (e os nem tanto),  se propõe a reler uma peça tradicional pertencente a outro tipo de dança, esta, de caráter acadêmico, mais “sério” e que “exige mais estudo”. Os narizes costumam torcer até chegar na nuca.

Mas nós, que acreditamos que em se tratando de arte todas as possibilidades de expressão são viáveis, e por que não, necessárias para a renovação da mesma, obviamente não compartilhamos dessa ideia.Compreendemos que para cada modalidade de dança existem direcionamentos específicos, seja no trabalho corporal (técnica), quanto no desenvolvimento da expressão e comunicação com o público (cênica). Nenhum desses  direcionamentos é mais ‘fraco’ ou mais ‘ forte’ que o outro, visto que em se tratando se habilidades corporais e comunicativas, o que é forte para mim pode ser fraco para você e vice-versa.

Então, vamos ao porquê de toda essa reflexão.

Um rapaz, que ama a dança assim como eu e e você,  sem nada demais aparentemente se não fosse pelo nome pitoresco – John Lennon da Silva – dançarino de street dance, se candidata a um reality show de danças pela televisão.  Questionado pelos jurados sobre o que iria apresentar, sofreu, ao responder, a mesma desconfiança que falei no início do post. Julgaram (mal) sua vestimenta e a escolha do repertório. E o que se viu, foi isso:

O que vejo quando ele dança?

Eu vejo o cisne, com suas penas, mergulhado na angústia e no desespero, tendo seu desejo de viver se esvaindo.Como quando a gente perde uma luta por algo que ama demais.

Chamo isso de arte.

 

*Jorge Aragão fez isso. Veja aqui.